Críticas

Crítica | Arrobapontocom: do status à fragilização social

Não é de hoje que o cinema aborda a degradação do ser humano a partir de suas ações, como o consumo desenfreado proporcionado pelo capitalismo, a exploração de recursos naturais, ou mesmo o abuso humano. No caso do curta-metragem “Arrobapontocom”, dirigido por Rogério Engelhardt, o pano de fundo para o tema são as redes sociais.

Em um futuro não tão distante, todas as relações humanas são feitas e medidas a partir do score do perfil da rede Arrobapontocom: com uma pontuação maior, o usuário tem mais privilégios, já uma pontuação menor limita acessos e interações.

Para aumentar os pontos – e a reputação – é necessário expor sua vida ao limite em lives, fotografar sua rotina, abusar dos stories e todos os outros atributos das redes sociais que conhecemos só que em uma única plataforma.

Neste cenário, acompanhamos a protagonista Karime ( Ândria dos Reis), que, após se envolver problemas, deixa de ser uma das pessoas com score mais alto para alguém da sua idade e fica com pontos baixíssimos. E é ao se deparar com essa situação que ela faz o necessário para ter sua vida de volta.

Em 2016, o longa-metragem “Nerve – Um Jogo Sem Regras”, estrelado por, Emma Roberts e Dave Franco, trouxe uma proposta parecida ao retratar os impactos de uma população hiperconectada que sente necessidade de desafiar e observar pessoas vivendo no limite em busca de dinheiro e status. “Nerve” poderia entregar uma joia ao público, mas infelizmente não consegue lapidá-la e derrapa ao proporcionar uma aventura adolescente. E apesar do “Arrobapontocom” ter semelhanças e beber de uma mesma fonte criativa, ele vai além!

O curta tem como inspiração as obras “Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord, e “Vigiar e Punir”, do também francês Michel Foucault – com direto a easter eggs -, mesclando de forma genuína o flerte que o diretor tem com a filosofia e a sétima arte.

E é nesse ponto que o filme tem o seu maior acerto: promover reflexões sobre uma sociedade pós-moderna, fluída e oriunda de um tempo não tão distante do nosso, nos colocando em xeque sobre qual é a nossa participação dentro da trama – lembrando sempre que assistir também é participar. Mesmo que algumas falas sejam expositivas, a narrativa nos proporciona uma história que precisa de tempo para ser digerida.

A fotografia e a trilha sonora também cumprem bem o seu papel, transmitindo a solidão e a tristeza em momentos precisos para a composição da personagem principal, por meio de cores escuras. Da mesma forma ocorre com as cenas em que a rede social é citada, com composições de cores mais quentes, transmitindo sensações de felicidade e pertencimento.

É importante ressaltar também o trabalho ímpar de Ândria dos Reis para dar vida à Karime, uma personagem complexa e que carrega diversas nuances e facetas em pouco tempo de tela, das inconsequências de uma jovem adulta, tristeza de quem está à margem da sociedade até a ferocidade de alguém está disposta a colocar suas necessidades – e por que não sua sobrevivência? – acima de qualquer coisa.

O curta-metragem “Arrobapontocom” nasceu da viabilização orçamentária cedida pelo edital da Lei Aldir Blanc, da Secretaria de Cultura da cidade de Itapecerica da Serra. Esse tipo de ação internaliza nosso olhar para as produções culturais desenvolvidas e que muitas vezes são deixadas de lado por falta de espaço, mas que geram crescimento da economia local, além de abrir portas a novos diretores, atrizes, atores, cinegrafistas, figurinistas, produtores e todos os profissionais que permeiam a cadeia cinematográfica e buscam espaço para alavancarem seus nomes e suas vozes na indústria e no gosto popular.

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